sábado, 6 de novembro de 2010

Saudade.Vida.

Querido diário, 


Dia 14 de Fevereiro de 2008 foi um dia de felicidade, de alegria, um dia passado com amigos. Sorri até não puder mais. Pelas 18:10 cheguei a casa e minha cunhada estava há minha espera, como é óbvio achei muito estranho, mas nada de mal me passou pela cabeça. Saí do autocarro e ela abriu o vidro exclamou: “o teu avô está pior”. Eu não reagi!
        Entrei em casa pousei a mochila e as lágrimas caíram-me pelo rosto. “Meu avô eu amo-te tanto, mas Deus vai te levar” pensei eu, enquanto limpava o rosto para ir ao pé da minha mãe.
        Assim que abri a porta da cozinha, a minha mãe e a Té estavam a chorar e a gritar. “Por favor filha não o deixes partir”, abraçou-se a mim e dizia isso repetitivamente. De novo as lágrimas percorreram o meu rosto. Nunca pensei que aquele dia ia ter um final tão triste! Já era um pouco tarde, e decidi deitar-me. Adormecer? Era coisa impossível. Dava voltas e voltas, rezava para que ele melhora-se. Aos poucos deixei-me dominar pelo cansaço e adormeci.
        Novo dia surgiu, dia 15. Acordei com um pressentimento que algo ia acontecer, sentia que não devia ir para a escola. Assim que me levantei, fui ao meu pai e disse-lhe que: “Se algo acontecer por favor avisa-me”. No meio de tanta preocupação, de tanta dor já me esquecia que o meu irmão fazia anos. A caminho da paragem do autocarro liguei lhe dei-lhe os parabéns, mas ele rápido desligou.
        Entrei no autocarro e a Rute já estava a minha espera, encostei-me ao ombro dela e chorei, chorei e chorei. Ela com as suas palavras ia-me tentando acalmar. Saí do autocarro e fui até a escola, cheguei lá e tentei acalmar-me, mas pouco tempo depois chegaram meus amigos, a primeira pessoa que abracei foi a Tânia, pois ela viu-me e perguntou-me o que se passava e eu nem palavras tive para dizer, simplesmente a abracei com muita força e chorei no seu ombro. A Mariana mexia-me no cabelo, de seguida, chegou o pessoal todo, a Catarina e a Andreia abraçaram-me e perguntaram-me o porquê de estar assim. “O meu avô vai morrer” foi tudo que consegui dizer naquele momento. Tocou, e nós íamos ter natação. Chegamos lá, e o Armando, aproximou-se de mim, abraçou-me e deu-me um beijo e disse força amiga. Sentei-me para ver se parava de chorar e me conseguia controlar. O Armando, a Mariana e a Andreia faziam de tudo para que eu sorri-se. De vez em quando, lá aparecia um sorriso na minha cara mas muito murcho, pois não estava bem.         Entretanto, a aula terminou. A caminho para a escola, encontrei um primo que me perguntou pelo meu avô e eu disse que ele não estava bem, mas não quis adiantar pormenores. Como demorei um pouco na conversa fiquei para trás, mas a Mariana e a Eliana, esperaram por mim, quando entrei no recinto escolar, cruzei-me com a uma rapariga e ela disse que queria falar comigo. Parei e quando ia começar a falar com ela o meu telemóvel começa a vibrar, era o meu pai. “Vai para a entrada do liceu que o mano vai-te buscar porque o avô já morreu” disse o meu pai, mal atendi a chamada, com uma voz de sofrimento. Desliguei, olhei para a Mariana, com os olhos cheios de água, e disse: “o meu avô morreu”. Abracei-a e chorei. A Eliana nem sabia o que dizer.
        O meu mano já estava à minha espera, e eu nem tempo tive de avisar os meus amigos mas pedi à Mariana para que lhes dissesse. Mas ainda tive tempo de avisar a Rute, como tinha prometido.  
        Entrei na carinha e nem uma palavra disse. Assim que cheguei a casa fui logo ao pé da minha mãe, abracei-a e disse ele está aqui para sempre. De seguida, perguntei Té e a minha mãe disse que ela estava no quarto. Fui ao pé dela e assim que olhei para ela chorei ainda mais. “Porquê isto?”
        Contudo ainda não estava em mim que o tinha perdido para sempre, o corpo ainda não tinha chegado, e por mais que me dissessem que ele tinha falecido, eu não tinha consciência do que tinha ocorrido, da gravidade.
        Preto e mais preto. Escuridão! O corpo estava prestes a chegar, e passado poucos minutos ali estava ele! Deitado e  sorrindo… Olhei para o meu irmão, e ele alagado em lágrimas, agarrou-se a mim a chorar, levou-me para a cozinha e juntos chorávamos, deitávamos tudo cá para fora, mas a dor permanecia! Eu nem forças tinha, mas levantei-me e fui à sala.
        Olho, e ali estava ele “parecia um anjo”, peguei na mão dele e disse: «Amo-te para sempre, cuida de nós» e voltei para junto do meu irmão. Ele agarrou-me com tanta força, e disse-me: “Porquê mana? Porquê no dia dos meus anos? Nunca mais quero que me cantem os parabéns.” Nem uma palavra tinha, juntos chorávamos. Dor, dor, dor! Sofrimento!
        O ambiente estava muito pesado, as pessoas começaram a chegar para nos darem a sua força. Eu estava sempre ao pé da urna, junto dele, junto do meu avô, do meu pai, do meu anjo!
        O meu tio Paulo, mesmo com a dor dentro dele, agarrava-se a mim e dizia-me: “linda, tem calma, não chores”, mas eu não conseguia, olhava para o meu avô, e lembrava-me de todas as coisas lindas que ele me ensinou, de tudo que vivemos juntos.
O tempo passava e as pessoas aumentavam. Eu já estava a ter noção das coisas. Ele já não ia estar mais comigo, pelo menos fisicamente. O meu pai já não ia estar mais comigo!
O relógio marcava 10 horas da noite, quando a minha amiga Andreia veio ao pé de mim, agarrou na minha mão e disse-me para eu ter força. Eu só me agarrava a ela a chorar. Ela desde esse momento nunca mais me deixou. Já era tarde, e eu estava muito mal já não tinha forças nenhumas, não queria comer nem dormir, apenas queria tar ao pé dele agarrada à Andreia.
A sala estava repleta de gente e com o cheiro das flores eu não me estava a sentir bem. A Andreia levou-me logo para a rua, para apanhar um pouco de ar. O meu pai veio ao pé de nós e disse-me para eu ir dormir, mas eu não queria, mas a Andreia levou-me. Gritos, lágrimas, dor!
Os meus primos estavam deitados na cama da minha mãe, e eu e a Andreia ficamos na minha, eu não conseguia dormir. Assim que fechava os olhos revia momentos que passamos juntos, os sorrisos, os abraços, tudo! Ela fazia-me imensas festinhas, para ver se me acalmava e acabava por adormecer. O meu tio Zé, tinha acabado de chegar de França e foi ao pé de mim, dar-me um beijinho e eu ainda não dormia! Sofrimento!
Passado alguns minutos, o meu primo mais velho veio para ao pé de mim a chorar, a dizer que não consegui dormir. Deitei-o ao meu lado, fiz-lhe festinhas e ele adormeceu, enquanto que o mais novo, de apenas 2 aninhos, só chorava porque não via a mãe.
Contudo, já eram 2:30 da manhã, e eu sem descansar. Ela já tinha tentado adormecer-me vezes sem conta e acabava sempre por acordar. Uma noite horrível. Uma noite de desespero. Uma noite sem o beijinho dele. Levantei-me, vesti-me e vim logo para baixo, a Andreia teve de ir a casa mudar de roupa, e eu fiquei na sala com a minha mãe. Nem sabia o que dizer, ela estava tão mal, e eu com a dor que tinha dentro de mim não tinha palavras. Mãe e filha perdidas! Abraços!
Tanta dor, tanta dor! O tempo passava a correr, e em breve em saberia que ia levo partir, levo a fechar o livro da vida!
A Andreia chegou e voltou para ao pé de mim. Lágrimas! A hora do adeus estava perto muito perto.
Eu já não conhecia ninguém, não sabias quem vinha ao pé de mim dar-me os “sentimentos”. Estava perdida, eu precisava dele!
O cheiro a flores era cada vez mais intenso e tive de vir novamente para a rua. O Padre acabara de chegar e era sinónimo de partida. Gente, muita gente que assistiu à sua partida.
Estava de rastos e quando olho já a urna estava a ser tirada de casa, do seu lar, do nosso lar pai! Senti aperto dor, e quando olhei estavam lá os meus amigos, para me dar força.
Hora da partida, hora de ir para a capela. De mão dada com todos os amigos que me apoiaram naquele dia, naquela hora, eu sentia-me cada vez mais fraca. Fui ficando para trás com eles e fui a última a chegar à capela. Ele estava de novo ali, de novo a sorrir. “Não, não, não me deixes!”
A missa terminou, “eterno descanso”! Como sempre ele pediu, ia fechar o livro na terra onde nasceu e cresceu, Sta. Eugénia. “Fui com ele, até ao último segundo”.
Cemitério. Agora sim, tinha a plana consciência de tudo, de tudo o que aconteceu. Adeus. Dor. Saudade.
Sentia-me fraca, muito fraca, mas ela estava a acompanhar-me e levou-me até junto dele. A urna estava à minha frente de novo aberta e num abrir e fechar de olhos … era a despedida. “Porquê isto pai? Porquê agora? Não.”
Beijo na testa, sinal de respeito como tu sempre me ensinas-te e assim foi. Assim me despedi de ti, abracei-me, gritei, chorei, chamei por ti e beijei-te na testa pai.
Elas não me queriam deixar ir até tu ires para aquele buraco fundo e feio mas eu pedi e gritei e fui. Vi-te avô, vi-te pai, a ires para aquele poço e eu não poder ir contigo. Dor. Lágrimas.
Partiste para outro mundo, meu anjo. Entras-te naquele buraco feio avô. Terra. Por mais fraca que estava eu ainda peguei na terra e deitei por cima de ti, avô. Melhor amigo.
Chegou a hora de me vir embora, de vir de novo para a nossa casinha dos segredos. A minha mão estava coberta de terra. Saudades. Sofrimento.
“És o meu maior orgulho neta. Esta é a última vez que me vais ver. Já não entro a esta casa vivo. Mas promete-me que não deixas a Té.”  Tu tiveste razão avô, neste domingo que me disses-te isto foi mesmo a última vez. No hospital não me deixaram entrar, não me deixaram ver-te. Mas agora pai, és a minha estrela, o meu tesouro. Amarteei para sempre, meu verdadeiro pai!

Saudades de descer as escadas do autocarro e ir para junto de ti!
“Posso não te ver, nem te tocar, mas vou te amar para sempre!
Orgulho de tudo avô.
Preciso de ti! 
Pai, saudade!

1 comentário:

  1. A vida é injusta eu sei! Tira-nos tdo que mais amamos quando mais precisamos. Pois então ficamos, e se ficamos é porque temos uma missão, ele parti-o mas deixou-te aqui, deixou-te aqui com uma missão, como "discipulo" dele. Pois então é isso que tu vais fazer, sendo fiel e demonstrando esse amor todo! Tenho fé que vais cnseguir, pq és capaz! Ele dá-te força como mais ninguem dará, eu sei que por ele moverás este mundo e tds mais que apareçam! Força nessa luta!

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